Dra, por que eu mudei tanto depois que o zumbido começou?

Muitos pacientes chegam ao consultório dizendo algo parecido com isso:

“Dra., eu sinto que mudei muito depois que o zumbido começou.”

Talvez você tenha percebido que ficou mais irritado, mais impaciente ou que passou a dormir pior. Algumas pessoas relatam cansaço constante, dificuldade de concentração e até perda de rendimento no trabalho ou nos estudos.

E o que torna tudo ainda mais difícil é que, muitas vezes, quem está ao redor não entende. Alguns acham que é exagero ou que é apenas algo psicológico.

Mas existe algo muito importante que você precisa saber: isso não é fraqueza e não é “coisa da sua cabeça”.

O zumbido pode provocar alterações reais no funcionamento do cérebro e do corpo.

Meu nome é Dra. Kênia Chaves, sou médica otorrinolaringologista e otoneurologista, e neste artigo vou explicar como o zumbido pode afetar o organismo e, principalmente, como é possível tratar essas alterações e recuperar sua qualidade de vida.

O zumbido não é apenas um som no ouvido

Muitas pessoas acreditam que o zumbido é apenas um barulho no ouvido. Na realidade, ele pode desencadear uma série de alterações no funcionamento do cérebro.

Em muitos casos, o cérebro entra em um estado de hiperalerta, como se estivesse constantemente atento a um possível perigo.

Esse estado afeta diversas funções importantes do organismo.

Alterações nos neurotransmissores

Uma das principais mudanças ocorre nos neurotransmissores, que são substâncias químicas responsáveis pela comunicação entre os neurônios e que regulam funções como humor, sono, energia e ansiedade.

Entre os neurotransmissores mais envolvidos no zumbido estão:

GABA e glicina

Esses são neurotransmissores relacionados ao relaxamento e ao equilíbrio do sistema nervoso. Eles ajudam a “frear” a atividade cerebral e promovem sensação de calma.

Quando estão reduzidos, o paciente pode apresentar:

  • tensão constante
  • dificuldade para relaxar
  • ansiedade
  • sono de baixa qualidade

Serotonina

A serotonina está associada ao bem-estar e à estabilidade emocional.

Quando seus níveis estão reduzidos, podem surgir sintomas como:

  • irritabilidade
  • tristeza
  • insônia
  • ansiedade
  • desânimo

Dopamina

A dopamina está relacionada à motivação, energia e prazer nas atividades do dia a dia.

Quando está baixa, o paciente pode sentir:

  • falta de motivação
  • cansaço mental
  • dificuldade de foco
  • perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas

Glutamato

O glutamato é o principal neurotransmissor excitador do cérebro. Ele é importante para memória e aprendizado, mas quando está em excesso pode provocar:

  • irritabilidade
  • agitação mental
  • hipersensibilidade aos sons
  • piora da percepção do zumbido

Em muitos pacientes com zumbido crônico, ocorre um desequilíbrio entre neurotransmissores excitadores e calmantes, o que contribui para sintomas emocionais e cognitivos.

Alterações nas ondas cerebrais

Outro fenômeno que pode ocorrer em pessoas com zumbido é a alteração das ondas cerebrais.

Nosso cérebro trabalha com diferentes frequências de atividade elétrica, dependendo do que estamos fazendo. Por exemplo:

  • Frequências mais rápidas estão associadas a concentração e raciocínio
  • Frequências mais lentas estão relacionadas ao relaxamento e ao preparo para o sono

Em alguns pacientes com zumbido, o cérebro perde parte da capacidade de regular essas frequências.

Isso faz com que o cérebro permaneça por mais tempo em um estado de atividade acelerada, mesmo em momentos em que deveria relaxar.

Como consequência, surgem sintomas como:

  • dificuldade para dormir
  • sensação constante de alerta
  • dificuldade para relaxar
  • cansaço mental

Ativação do sistema do estresse

O zumbido também pode ativar o sistema nervoso simpático, que é o sistema responsável pelas respostas de estresse e sobrevivência.

Esse sistema prepara o corpo para situações de “luta ou fuga”. Quando ativado de forma contínua, o organismo passa a funcionar como se estivesse diante de um perigo permanente.

Além disso, o zumbido pode estimular áreas do cérebro relacionadas às emoções, como a amígdala cerebral, que participa dos circuitos de medo, irritação e hipervigilância.

Por isso, muitos pacientes com zumbido passam a apresentar:

  • irritabilidade
  • insônia
  • ansiedade
  • dificuldade de concentração
  • dificuldade de aprendizado
  • queda de rendimento no trabalho ou nos estudos

Isso não é falta de força de vontade. É neurobiologia.

Como é feito o tratamento do zumbido?

Uma informação importante que poucos pacientes recebem é que o tratamento do zumbido não deve focar apenas no ouvido.

Claro que investigar e tratar a causa do zumbido é fundamental. Mas também é essencial tratar os efeitos que o zumbido provoca no cérebro.

Por isso, o tratamento costuma ser integrado e personalizado.

Entre as abordagens que podem ser utilizadas estão:

Regulação dos neurotransmissores

Podem ser utilizados medicamentos e suplementos que ajudam a equilibrar neurotransmissores relacionados ao humor, relaxamento e energia.

Neuromodulação

A neuromodulação utiliza diferentes técnicas para ajudar o cérebro a regular sua atividade, incluindo:

  • estímulos sonoros específicos (frequências binaurais)
  • técnicas de estimulação cerebral
  • biofeedback respiratório
  • estimulação do nervo vago

Essas abordagens ajudam a reduzir o estado de hiperalerta e a restaurar o equilíbrio do sistema nervoso.

Psicoterapia

A psicoterapia também pode ajudar a reorganizar a forma como o cérebro interpreta o zumbido, reduzindo a associação com medo e perigo.

O objetivo é ensinar o cérebro a “desligar a sirene interna” e voltar a funcionar de forma equilibrada.

Você pode recuperar sua qualidade de vida

Se você sente que não é mais a mesma pessoa depois que o zumbido começou, saiba que isso tem explicação científica — e também tem tratamento.

Você não está sozinho, e não precisa continuar vivendo em estado constante de alerta.

Com avaliação especializada e tratamento adequado, é possível reduzir o impacto do zumbido e recuperar bem-estar, sono e qualidade de vida.

Se o zumbido tem afetado seu dia a dia, procure avaliação com um otoneurologista. O tratamento correto pode fazer uma grande diferença.

Dra Kênia Assis Chaves

CRMMG 52018

RQE 33072

Kenia Assis Chaves - Doctoralia.com.br

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