“Eu escuto, mas não entendo.”
Essa é uma das frases que mais ouvimos no consultório quando avaliamos pacientes com perda auditiva relacionada ao envelhecimento, também chamada de presbiacusia.
Muitas vezes, a pessoa ainda consegue ouvir sons, perceber que alguém está falando ou até acompanhar uma conversa em um ambiente silencioso. Entretanto, começa a ter dificuldade para compreender as palavras, principalmente quando há várias pessoas conversando ou algum ruído ao redor.
Esse quadro é bastante comum com o avanço da idade, mas isso não significa que a perda auditiva deva ser simplesmente aceita como uma consequência inevitável do envelhecimento.
A avaliação adequada permite identificar o problema precocemente e, quando indicado, iniciar medidas para preservar a comunicação, a autonomia e a qualidade de vida.
O que é presbiacusia?
A presbiacusia é a perda auditiva associada ao processo de envelhecimento. Ela ocorre principalmente em decorrência de alterações progressivas nas estruturas do ouvido interno, especialmente nas células sensoriais responsáveis por transformar as vibrações sonoras em sinais elétricos que serão interpretados pelo cérebro.
Ao longo dos anos, essas estruturas podem sofrer desgaste. Como consequência, a capacidade de perceber determinados sons diminui progressivamente.
Entretanto, a presbiacusia não deve ser compreendida apenas como uma simples redução do volume dos sons.
Em muitos pacientes, a principal dificuldade inicialmente não é “ouvir menos”, mas compreender pior aquilo que está sendo dito.
Por que a pessoa escuta, mas não consegue entender as palavras?
Nas fases iniciais da perda auditiva relacionada à idade, é comum que as frequências mais agudas sejam afetadas primeiro.
Essas frequências estão presentes em diversos sons importantes para a diferenciação das palavras, especialmente em determinadas consoantes.
Por isso, o paciente pode ouvir a voz de uma pessoa, mas ter dificuldade para distinguir exatamente o que foi falado.
É comum ouvir frases como:
“Doutora, eu escuto, mas não entendo.”
Ou:
“Parece que as pessoas estão falando para dentro.”
Isso acontece porque ouvir e compreender a fala não são exatamente a mesma coisa. A qualidade da informação sonora que chega ao cérebro é fundamental para que ele consiga identificar e interpretar corretamente as palavras.
Em alguns pacientes, o zumbido também pode surgir associado à perda auditiva.
Como a perda auditiva costuma evoluir?
A presbiacusia geralmente apresenta uma evolução gradual.
No início, a dificuldade pode aparecer principalmente em situações mais desafiadoras, como:
- restaurantes;
- reuniões familiares;
- festas;
- ambientes com muitas pessoas conversando;
- locais com música ou ruído de fundo.
Nessas situações, o paciente precisa de mais esforço para compreender a fala e pode começar a pedir que as pessoas repitam o que disseram.
Com a progressão da perda auditiva, a dificuldade pode passar a ocorrer também em ambientes silenciosos e em conversas individuais.
Por isso, muitas vezes a família percebe a alteração antes do próprio paciente.
Quais são os principais sinais de perda auditiva?
Alguns sinais merecem atenção:
- pedir frequentemente para que as pessoas repitam o que disseram;
- aumentar muito o volume da televisão;
- ter dificuldade para conversar ao telefone;
- apresentar dificuldade para compreender a fala em ambientes ruidosos;
- perceber que as pessoas “falam baixo” ou “falam embolado”;
- apresentar zumbido;
- evitar conversas ou situações sociais por dificuldade de comunicação.
Esses sinais não devem ser simplesmente atribuídos à idade.
A partir de que idade devemos avaliar a audição?
Não existe uma idade única que determine quando cada pessoa deve realizar uma avaliação auditiva. A necessidade depende de fatores individuais, sintomas, histórico familiar e exposição a fatores de risco.
De maneira geral, a partir de 60 anos é importante que a audição passe a ser acompanhada de forma periódica, mesmo quando a pessoa acredita estar ouvindo bem.
O acompanhamento permite identificar alterações ainda discretas e estabelecer uma comparação ao longo do tempo.
Pessoas com maior risco de perda auditiva podem precisar iniciar esse acompanhamento mais precocemente.
Quem pode desenvolver perda auditiva mais cedo?
Embora o envelhecimento seja um dos principais fatores associados à presbiacusia, outros elementos podem contribuir para o aparecimento ou agravamento da perda auditiva.
Entre eles estão:
- histórico familiar de perda auditiva;
- exposição prolongada a ruídos intensos;
- uso de determinados medicamentos potencialmente ototóxicos;
- tabagismo;
- diabetes;
- alterações cardiovasculares e metabólicas;
- hipertensão arterial, especialmente quando não adequadamente controlada.
Por isso, a avaliação auditiva deve considerar não apenas a idade, mas também o histórico e as características individuais de cada paciente.
Como é feito o diagnóstico?
A investigação começa com uma avaliação médica detalhada e pode incluir exames auditivos.
Um dos principais é a audiometria, exame realizado em uma cabine acústica, no qual o paciente utiliza fones de ouvido e sinaliza sempre que percebe determinados sons.
A audiometria permite identificar quais frequências estão comprometidas e qual é o grau da perda auditiva.
Dependendo do caso, outros exames podem ser necessários para compreender melhor a função auditiva e excluir outras causas de perda de audição.
O diagnóstico, portanto, não deve ser baseado apenas na idade do paciente. É necessário compreender qual é o tipo de perda auditiva, sua intensidade e como ela interfere na comunicação.
“Mas, doutora, se é da idade, eu preciso tratar?”
Essa é uma pergunta extremamente frequente.
E a resposta é: o fato de uma alteração estar relacionada ao envelhecimento não significa que ela não possa ou não deva ser tratada.
Podemos fazer uma comparação simples com a visão.
A presbiopia, por exemplo, também está relacionada ao envelhecimento. É natural que muitas pessoas precisem de óculos para leitura depois de determinada idade.
Mas o fato de isso ser comum não significa que seja necessário aceitar uma visão ruim.
Se existe uma forma segura de melhorar a capacidade de enxergar, por que não utilizá-la?
Com a audição, o princípio é semelhante.
O envelhecimento é natural. Viver com uma limitação que pode ser corrigida ou amenizada não precisa ser.
O que pode acontecer quando a perda auditiva não é tratada?
A audição tem uma função muito maior do que simplesmente permitir que uma pessoa escute sons.
Ela está diretamente relacionada à comunicação, à participação social e à autonomia.
Quando o paciente tem dificuldade para compreender o que os outros dizem, pode começar a evitar determinadas situações.
Uma pessoa que antes gostava de sair para jantar pode deixar de frequentar restaurantes porque não consegue acompanhar as conversas.
Pode participar menos das reuniões familiares.
Pode ter dificuldade para conversar com os netos.
Pode evitar falar ao telefone.
Progressivamente, isso pode favorecer isolamento social e redução da participação em atividades que antes proporcionavam prazer e interação.
Perda auditiva e saúde emocional
A dificuldade persistente de comunicação também pode repercutir sobre o bem-estar emocional.
Quando uma pessoa deixa de participar de conversas porque não consegue acompanhar o que está sendo dito, ela pode se sentir frustrada, constrangida ou excluída.
Por isso, pessoas com perda auditiva apresentam maior risco de isolamento social e de sintomas relacionados à saúde mental.
É importante compreender, entretanto, que isso não significa que toda pessoa com perda auditiva desenvolverá depressão. O impacto varia de acordo com a intensidade da perda, o contexto social, a personalidade e diversos outros fatores.
Existe relação entre perda auditiva e declínio cognitivo?
Essa é uma das áreas que mais despertaram interesse nas pesquisas nos últimos anos.
Estudos observacionais encontraram associação entre perda auditiva não tratada e maior risco de declínio cognitivo em adultos mais velhos.
Uma das hipóteses é que a dificuldade auditiva aumente o esforço necessário para compreender a fala, exigindo maior utilização de recursos de atenção e processamento cognitivo. Além disso, o isolamento social associado à dificuldade de comunicação também pode contribuir para esse processo.
Isso não significa que toda pessoa com perda auditiva desenvolverá demência ou doença de Alzheimer, nem que o tratamento da audição seja capaz, isoladamente, de prevenir essas doenças.
O que sabemos é que a saúde auditiva faz parte da saúde cerebral e deve ser acompanhada como parte do cuidado integral do envelhecimento.
Como a presbiacusia é tratada?
Quando a perda auditiva prejudica a comunicação e apresenta indicação para amplificação, uma das principais formas de tratamento é o uso de aparelhos auditivos.
Os dispositivos atuais evoluíram significativamente e podem oferecer recursos avançados de processamento sonoro, redução de ruído, conectividade e personalização.
Mas a escolha do aparelho não deve ser baseada apenas na tecnologia disponível.
É fundamental considerar:
- o grau e o tipo de perda auditiva;
- as necessidades comunicativas do paciente;
- o estilo de vida;
- os ambientes frequentados;
- as expectativas em relação ao tratamento;
- a capacidade de adaptação ao dispositivo.
O cérebro precisa de tempo para se adaptar
Uma dúvida frequente é por que o paciente nem sempre percebe uma melhora imediata ao começar a utilizar o aparelho auditivo.
Isso acontece porque a audição não depende exclusivamente do ouvido.
O cérebro participa ativamente da interpretação dos sons. Quando uma pessoa passou anos ouvindo menos, seu sistema auditivo se acostuma a receber uma quantidade reduzida de informações.
Ao iniciar a amplificação, o cérebro volta a receber sons que estavam parcialmente ausentes.
Por isso, existe um período de adaptação, durante o qual o paciente precisa reaprender a interpretar esses estímulos.
A regulagem adequada do aparelho é fundamental nesse processo. Em muitos casos, a amplificação precisa ser ajustada progressivamente, de acordo com a tolerância e a evolução do paciente.
O tratamento depende também da participação do paciente
O sucesso da adaptação não depende apenas da tecnologia do aparelho auditivo.
Existe um componente importante de acompanhamento profissional e participação ativa do paciente.
É necessário utilizar o dispositivo regularmente, retornar para os ajustes quando necessário e comunicar ao profissional quais situações ainda estão sendo difíceis.
A adaptação é um processo, e não simplesmente a entrega de um aparelho.
Ouvir bem também é uma forma de preservar a qualidade de vida
Tratar uma perda auditiva não significa apenas aumentar o volume dos sons.
Significa possibilitar que a pessoa volte a participar plenamente das situações que fazem parte da sua vida:
- acompanhar uma conversa durante um almoço em família;
- conversar ao telefone;
- ouvir os netos;
- participar de reuniões;
- assistir à televisão com mais conforto;
- manter uma vida social ativa;
- preservar sua autonomia e comunicação.
Por isso, a perda auditiva relacionada ao envelhecimento não deve ser encarada simplesmente como algo que “faz parte da idade e não tem solução”.
O envelhecimento é inevitável. A perda auditiva pode ser acompanhada, diagnosticada e, quando indicada, tratada.
Cuidar da audição é também cuidar da comunicação, da autonomia e da qualidade de vida ao longo dos anos.
Dra Kênia Assis Chaves
Médica Otorrinolaringologista
CRMMG 52018
RQE 33072