É relativamente comum que pacientes com queixas de tontura ou vertigem relatem já ter realizado tratamentos prévios sem melhora significativa dos sintomas. Nesses casos, é fundamental compreender que a ausência de resposta ao tratamento, na maioria das vezes, não está relacionada à ineficácia terapêutica em si, mas à falta de uma investigação adequada e de um diagnóstico preciso.
A importância da investigação clínica completa
Para que qualquer tratamento seja eficaz, é essencial que o organismo esteja em condições adequadas de funcionamento. Alterações metabólicas e nutricionais podem interferir diretamente no equilíbrio corporal, especialmente no funcionamento do sistema nervoso central e do ouvido interno.
Deficiências de vitaminas, distúrbios hormonais, alterações glicêmicas, entre outros fatores, são frequentemente negligenciados, mas desempenham papel relevante na manutenção do equilíbrio. A ausência de investigação laboratorial e da correção dessas alterações pode comprometer a resposta a qualquer abordagem terapêutica subsequente.
Avaliação específica do labirinto
Outro ponto fundamental é a realização de exames específicos do sistema vestibular. Exames como o video head impulse test (vHIT) permitem uma avaliação objetiva da função dos canais semicirculares e são essenciais para o correto direcionamento do tratamento.
Sem essa avaliação detalhada, há risco de conduzir o paciente de forma genérica, sem considerar as particularidades do seu quadro clínico.
Nem toda “labirintite” é igual
Um erro comum é tratar todas as queixas de tontura como se fossem uma única condição. O termo popular “labirintite” é frequentemente utilizado de forma inespecífica, porém, na prática clínica, existem dezenas de doenças vestibulares distintas, cada uma com mecanismos, evolução e tratamentos próprios.
O diagnóstico impreciso leva, inevitavelmente, a tratamentos inadequados ou incompletos.
Tratamento das crises versus tratamento da doença
Outro fator que contribui para a falha terapêutica é o foco exclusivo no controle das crises, sem abordagem da causa de base.
O uso de medicações supressoras vestibulares pode ser útil durante episódios agudos de vertigem, proporcionando alívio sintomático. No entanto, seu uso prolongado não é recomendado.
Em muitos casos, especialmente quando há hipofunção vestibular, essas medicações podem interferir negativamente no processo de compensação central — mecanismo pelo qual o cérebro se adapta às alterações do sistema vestibular.
A importância da reabilitação vestibular e abordagem multidisciplinar
Para a recuperação adequada do equilíbrio, frequentemente é necessário estimular o sistema nervoso central por meio da reabilitação vestibular, que promove a compensação e adaptação do organismo.
Além disso, dependendo do caso, pode ser indicada uma abordagem multidisciplinar, incluindo:
- Psicoterapia, especialmente quando há impacto emocional associado
- Fisioterapia, para melhora do equilíbrio e da postura
- Técnicas de neuromodulação, como estratégia complementar em casos selecionados
Essa abordagem integrada aumenta significativamente as chances de sucesso terapêutico.
Tratamento individualizado: o caminho para melhores resultados
A partir de um diagnóstico correto, baseado em avaliação clínica detalhada, exames laboratoriais e testes vestibulares específicos, é possível estabelecer um plano de tratamento direcionado às necessidades individuais de cada paciente.
Somente dessa forma o tratamento deixa de ser superficial e passa a atuar na causa do problema, proporcionando resultados mais consistentes e duradouros.
Considerações finais
A tontura é um sintoma complexo, que exige investigação cuidadosa e abordagem personalizada. Tratamentos genéricos ou incompletos tendem a falhar, não por ausência de opções terapêuticas eficazes, mas pela falta de direcionamento adequado.
Com diagnóstico preciso e tratamento individualizado, é possível não apenas controlar os sintomas, mas promover recuperação funcional e melhora significativa da qualidade de vida.
Dra Kênia Chaves
Médica otorrinolaringologista
CRMMG 52018
RQE 33072