Muitas pessoas procuram o consultório por causa da tontura, do zumbido ou da sensação constante de desequilíbrio. E frequentemente esperam encontrar um problema exclusivamente no ouvido.
Mas existe uma situação que vejo com muita frequência: o verdadeiro problema está no sono.
E essa costuma ser uma grande surpresa para os pacientes.
Quando falamos em doenças do sono, a maioria das pessoas pensa apenas em ronco ou em sentir sono durante o dia. Porém, um sono de má qualidade pode afetar praticamente todo o organismo, incluindo o funcionamento do cérebro e do ouvido interno.
O que é um sono realmente saudável?
Um sono de boa qualidade não é apenas dormir muitas horas.
O sono saudável é aquele que ocorre sem interrupções importantes, sem pausas respiratórias e que permite atingir todas as fases normais da arquitetura do sono, principalmente as fases profundas.
É durante essas fases que acontecem processos fundamentais para a saúde.
Produção hormonal
Durante o sono profundo ocorre a produção e regulação de diversos hormônios importantes.
Quando o sono é ruim, podem surgir alterações relacionadas ao ganho de peso, dificuldade para emagrecer, diabetes, hipertensão arterial, além de aumento do risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Produção de neurotransmissores
O sono também participa da produção e regulação de neurotransmissores responsáveis pelo equilíbrio emocional e pelo funcionamento adequado do sistema nervoso.
Por isso, pacientes com sono inadequado frequentemente apresentam:
- Irritabilidade;
- Alterações de humor;
- Ansiedade;
- Dificuldade de concentração;
- Falhas de memória.
E existe outro detalhe importante: quando o cérebro está sobrecarregado e irritado, o sistema auditivo e vestibular também podem ficar mais sensíveis, favorecendo sintomas como zumbido e tontura.
Produção de anticorpos
Grande parte da atividade do sistema imunológico acontece durante o sono.
Por isso, pessoas que dormem mal podem apresentar infecções recorrentes, recuperação mais lenta de doenças e maior sensação de fragilidade física.
Limpeza cerebral e neuroinflamação
Durante o sono ocorre um processo extremamente importante de “limpeza” cerebral.
Substâncias produzidas ao longo do dia são removidas, reduzindo processos inflamatórios do sistema nervoso.
Quando esse mecanismo não funciona adequadamente, pode surgir o que chamamos de neuroinflamação, condição associada a sintomas como:
- Fadiga crônica;
- Cansaço persistente;
- Sensação de mal-estar;
- Dificuldade cognitiva;
- Maior sensibilidade à dor;
- Piora da tontura e do zumbido.
Sintomas que podem indicar um problema de sono
Muitos pacientes acreditam que todos os seus sintomas são consequência da tontura ou do zumbido.
Mas frequentemente o sono inadequado é o principal responsável por parte dessas queixas.
Alguns sinais de alerta incluem:
- Ronco frequente;
- Sono não reparador;
- Sonolência excessiva durante o dia;
- Dormir assistindo televisão;
- Dormir durante leituras;
- Fadiga constante;
- Cansaço ao acordar;
- Irritabilidade;
- Falta de energia;
- Dificuldade de memória e concentração.
Como fazemos o diagnóstico?
Atualmente contamos com exames simples e práticos para investigar distúrbios do sono.
Um dos mais utilizados é a polissonografia domiciliar tipo 4.
Trata-se de um exame realizado na própria casa do paciente, sem necessidade de internação ou laboratório do sono.
O equipamento é fácil de utilizar, confortável e permite avaliar alterações respiratórias importantes durante o período do sono.
Em muitos casos, o exame mostra que o problema não é apenas o ronco.
O diagnóstico pode revelar a presença da apneia obstrutiva do sono.
O que é a apneia do sono?
A apneia do sono é caracterizada por interrupções repetidas da respiração durante a noite.
Essas pausas podem durar apenas alguns segundos, mas são suficientes para impedir que o paciente permaneça nas fases profundas do sono.
Mesmo dormindo várias horas, o organismo não consegue realizar adequadamente seus processos de recuperação.
Quando o índice de apneia está entre 15 e 30 eventos por hora, classificamos o quadro como apneia moderada.
Nesses casos, os sintomas costumam ser bastante significativos e frequentemente impactam diversas áreas da saúde.
O próximo passo: investigar a causa da obstrução
Após o diagnóstico, precisamos entender por que a apneia está acontecendo.
Uma das avaliações mais importantes é a videonasolaringoscopia.
Esse exame permite visualizar detalhadamente as vias aéreas superiores e identificar possíveis obstruções, como:
- Desvio de septo;
- Hipertrofia de adenoide;
- Alterações das conchas nasais;
- Outras causas anatômicas de obstrução.
Quando encontramos alterações significativas, o tratamento pode incluir:
- Medicações nasais;
- Controle de alergias;
- Imunoterapia;
- Cirurgias específicas.
Porém, nem todo paciente apresenta obstrução nasal importante.
Por isso cada caso deve ser avaliado individualmente.
E quando a obesidade está presente?
O excesso de peso é um dos principais fatores de risco para apneia do sono.
Nesses pacientes, a perda de peso pode reduzir significativamente a gravidade da doença.
Recentemente, medicamentos como a tirzepatida passaram a ser utilizados em situações específicas relacionadas à obesidade e à apneia do sono, sempre sob acompanhamento médico adequado.
O tratamento padrão-ouro: CPAP
Nos casos de apneia moderada ou grave, o tratamento mais eficaz costuma ser o CPAP.
O aparelho utiliza uma pressão positiva contínua para manter as vias respiratórias abertas durante toda a noite.
É comum que os pacientes tenham receio no início.
Muitos relatam desconforto nos primeiros dias de adaptação.
Mas existe algo que escuto repetidamente no consultório:
“Depois que me adaptei, não consigo mais dormir sem ele.”
Isso acontece porque o paciente volta a experimentar um sono realmente reparador e percebe melhora importante da disposição, energia e qualidade de vida.
E os aparelhos intraorais?
Em casos mais leves, especialmente quando existe apenas ronco ou apneia leve, os aparelhos intraorais podem ser uma alternativa interessante.
Eles funcionam reposicionando a mandíbula durante o sono para facilitar a passagem de ar.
Porém, em casos moderados ou graves, geralmente não oferecem resultados suficientes quando comparados ao CPAP.
O que tudo isso tem a ver com a tontura e o zumbido?
Essa é a parte mais importante.
Tratar a apneia do sono não significa apenas melhorar o ronco.
Quando corrigimos um distúrbio do sono, reduzimos a neuroinflamação, melhoramos a oxigenação cerebral e favorecemos o funcionamento adequado do sistema nervoso.
Com isso, o cérebro responde melhor aos tratamentos que utilizamos para tontura e zumbido, incluindo:
- Reabilitação vestibular;
- Neuromodulação;
- Tratamentos medicamentosos;
- Estratégias de controle da enxaqueca vestibular.
Em muitos pacientes, melhorar o sono é o primeiro passo para que todo o restante do tratamento funcione adequadamente.
Conclusão
Se você sofre com tontura, zumbido, fadiga constante, irritabilidade ou sonolência excessiva, vale a pena investigar a qualidade do seu sono.
Nem sempre o problema está apenas no ouvido.
Muitas vezes, existe um distúrbio do sono contribuindo para a manutenção dos sintomas e impedindo que o organismo se recupere adequadamente.
Por isso, antes de buscar soluções cada vez mais complexas, precisamos garantir que o cérebro esteja recebendo aquilo que ele mais precisa para funcionar bem: um sono profundo, restaurador e de qualidade.
Dra Kênia Chaves
Médica Otorrinolaringologista
CRMMG 52018 RQE 33072