Se você convive com zumbido, provavelmente já ouviu frases como:
“Você vai ter que aprender a conviver com isso.”
“Zumbido não tem tratamento.”
“Toma essa vitamina, esse chá ou esse remédio que alguém me indicou.”
Muitos pacientes chegam ao consultório desanimados, depois de tentar diversas abordagens sem sucesso.
Mas existe uma informação muito importante que pode mudar a forma como você enxerga esse problema: o zumbido não melhora com tentativa e erro. Ele melhora quando identificamos suas causas e construímos um tratamento personalizado.
Sou Dra. Kênia Chaves, médica otorrinolaringologista e otoneurologista, e neste artigo vou mostrar como conduzo a investigação e o tratamento do zumbido, sempre com base em evidências científicas e nas necessidades de cada paciente.
O primeiro passo é descobrir por que o zumbido apareceu
O zumbido não é uma doença. Ele é um sintoma.
Isso significa que ele pode ter diversas causas diferentes e, muitas vezes, mais de uma delas está presente ao mesmo tempo.
Por esse motivo, antes de pensar em qualquer tratamento, é fundamental fazer uma investigação completa.
Dependendo da história clínica de cada paciente, essa avaliação pode incluir:
- Audiometria, para avaliar a audição;
- Acufenometria, exame que mede as características do zumbido;
- Exames laboratoriais para investigar vitaminas, minerais, ferro, vitamina B12, vitamina D, função da tireoide e outros fatores importantes para o funcionamento do ouvido e do cérebro;
- Ressonância magnética dos ouvidos e do cérebro, principalmente quando o zumbido é unilateral ou pulsátil;
- Avaliação da coluna cervical, quando há dor no pescoço ou suspeita de participação muscular;
- Polissonografia, nos pacientes com alterações importantes do sono.
Sem essa investigação, qualquer tratamento será apenas uma tentativa genérica.
Cada paciente tem um conjunto diferente de causas
Durante a consulta, além dos exames, também avaliamos toda a história clínica.
Algumas perguntas são fundamentais:
- Como está seu sono?
- Você tem ansiedade ou depressão?
- Sofre com doenças autoimunes?
- Tem alterações intestinais?
- Existe perda auditiva?
- Há dores na mandíbula ou na coluna cervical?
Essas informações ajudam a entender que, na maioria das vezes, o zumbido não surge por um único motivo, mas pelo desequilíbrio de vários sistemas do organismo.
Nosso objetivo é identificar todas essas peças do quebra-cabeça.
O tratamento é organizado por prioridades
Depois da investigação, elaboramos um plano terapêutico individualizado.
Nem tudo precisa, ou deve, ser tratado ao mesmo tempo.
Primeiro identificamos:
- quais são as causas do zumbido;
- quais fatores estão piorando o sintoma;
- quais alterações surgiram como consequência do próprio zumbido.
A partir daí, estabelecemos uma sequência lógica de tratamento.
Essa organização aumenta muito as chances de sucesso.
Corrigir deficiências nutricionais é um dos primeiros passos
O cérebro e o ouvido dependem de diversos nutrientes para funcionar adequadamente.
Deficiências de vitaminas, minerais ou alterações metabólicas podem dificultar a recuperação do sistema auditivo.
Por isso, quando encontramos alterações laboratoriais, elas são corrigidas logo no início do tratamento.
Costumo explicar aos meus pacientes que tentar tratar o zumbido sem corrigir essas alterações é como querer preparar um bolo excelente usando ingredientes estragados. O organismo precisa das condições adequadas para responder ao tratamento.
Tratar a audição também faz parte do tratamento
Muitos pacientes apresentam algum grau de perda auditiva.
Quando isso acontece, tratar a audição é fundamental.
Dependendo do caso, podem ser indicados:
- aparelhos auditivos;
- reabilitação auditiva;
- estratégias específicas para estimular novamente o sistema auditivo.
Quando o cérebro volta a receber corretamente os sons do ambiente, ele tende a reduzir a necessidade de “compensar” essa falta de informação, diminuindo a percepção do zumbido em muitos pacientes.
Sono e intestino também influenciam o zumbido
Pouca gente imagina, mas a qualidade do sono e a saúde intestinal exercem grande influência sobre o funcionamento do cérebro.
Durante o sono profundo, ocorre uma importante reorganização das conexões cerebrais e dos neurotransmissores envolvidos na percepção do zumbido.
Já o intestino participa da produção de diversas substâncias importantes para o sistema nervoso, como a serotonina, além de exercer um papel fundamental na regulação da inflamação e da imunidade.
Por isso, melhorar o sono e cuidar da saúde intestinal fazem parte de um tratamento realmente completo.
Mandíbula, pescoço e músculos também podem estar envolvidos
Em alguns pacientes, o zumbido possui um componente chamado somatossensorial.
Nesses casos, alterações como:
- bruxismo;
- tensão muscular;
- disfunção da articulação temporomandibular (ATM);
- dores cervicais;
podem contribuir para o aparecimento ou agravamento do sintoma.
Quando identificamos essas alterações, elas também precisam ser tratadas.
A saúde emocional merece atenção
Conviver com um zumbido constante pode gerar ansiedade, alterações do sono e desânimo.
Ao mesmo tempo, quadros de ansiedade ou depressão podem aumentar a percepção do zumbido.
Por isso, durante a avaliação identificamos o que veio primeiro e estabelecemos as prioridades.
Cada paciente recebe um plano individualizado, que pode incluir medicamentos, suplementos, psicoterapia ou outras estratégias de acordo com sua necessidade.
O tratamento precisa ser acompanhado de forma objetiva
Na minha prática clínica, não avalio apenas se o paciente “acha” que melhorou.
Utilizamos instrumentos validados cientificamente para acompanhar a evolução.
Um dos principais é o THI (Tinnitus Handicap Inventory), um questionário internacional que mede o impacto do zumbido na qualidade de vida.
Além disso, quando necessário, repetimos exames ao longo do tratamento para avaliar a resposta do organismo e ajustar as condutas.
Esse acompanhamento torna o tratamento muito mais preciso e personalizado.
E quando o zumbido persiste?
Em alguns pacientes, mesmo após tratarmos todas as causas identificadas, o cérebro continua mantendo o zumbido ativo.
Nessas situações, podemos recorrer a terapias mais avançadas, como a neuromodulação e a fotobiomodulação.
O objetivo dessas técnicas é estimular a neuroplasticidade, ajudando o cérebro a reorganizar os circuitos envolvidos na percepção do zumbido.
Quando bem indicadas, elas podem potencializar os resultados do tratamento e contribuir para uma melhora significativa da qualidade de vida.
Todo zumbido merece ser investigado
Uma das maiores mudanças que ocorreram nos últimos anos foi compreender que o zumbido é uma condição complexa, que envolve muito mais do que apenas o ouvido.
Hoje sabemos que é necessário cuidar da audição, do cérebro, do sono, da saúde metabólica, da saúde emocional e de todos os fatores que influenciam esse sintoma.
Embora nem todos os pacientes consigam eliminar completamente o zumbido, praticamente todos podem ser tratados, reduzindo o incômodo e recuperando qualidade de vida.
Você não precisa enfrentar esse problema sozinho.
Com uma investigação cuidadosa, um tratamento estruturado e acompanhamento especializado, é possível controlar o zumbido e voltar a viver com mais tranquilidade.
Dra Kênia Chaves
Médica Otorrinolaringologista
CRMMG 52018
RQE 330172