A neuromodulação tem despertado grande interesse entre pessoas que sofrem com zumbido. E não é por acaso: ela pode ser uma ferramenta importante no tratamento de determinados pacientes.
Mas existe um ponto fundamental que muitas vezes é esquecido: neuromodulação não é simplesmente iniciar sessões e esperar que o zumbido desapareça.
Antes de indicar o tratamento, é importante entender as possíveis causas e fatores associados ao zumbido e avaliar se o organismo está preparado para responder adequadamente. Em outras palavras, antes de iniciar a neuromodulação, precisamos “colocar a casa em ordem”.
O que é neuromodulação?
A neuromodulação utiliza estímulos direcionados para modificar a atividade do sistema nervoso e favorecer mudanças na forma como o cérebro processa determinados estímulos.
No zumbido, alterações na atividade das redes cerebrais relacionadas à percepção sonora, atenção e emoções podem contribuir para que o som seja percebido e se torne mais incômodo.
A neuromodulação busca atuar nessas redes, ajudando a modificar padrões de atividade cerebral e a reduzir a importância que o cérebro atribui ao zumbido.
Por isso, pode ser uma estratégia interessante para determinados pacientes.
Nem sempre a neuromodulação deve ser o primeiro passo
Existem situações específicas em que a neuromodulação pode ser iniciada mais precocemente. Porém, em muitos pacientes, é necessário primeiro investigar e tratar fatores que podem estar contribuindo para a persistência ou intensidade do zumbido.
É semelhante a preparar uma parede antes de colocar um quadro: quanto melhor estiver a base, melhor será o resultado final.
Por isso, antes de iniciar o tratamento, alguns aspectos merecem atenção.
1. Avaliação dos nutrientes importantes para o sistema nervoso
O funcionamento adequado do cérebro depende de diversos nutrientes.
Por isso, dependendo da avaliação clínica, podem ser solicitados exames laboratoriais para identificar possíveis deficiências ou alterações que precisem ser corrigidas.
Quando existe uma deficiência nutricional relevante, ela deve ser tratada de forma individualizada.
A ideia é oferecer ao organismo condições adequadas para que o sistema nervoso funcione da melhor maneira possível.
2. Avaliação e tratamento da audição
O zumbido pode estar associado à perda auditiva, mesmo quando ela é discreta.
Quando existe uma alteração auditiva, é importante identificá-la e avaliar se há necessidade de tratamento.
Isso porque o cérebro participa ativamente da percepção do zumbido. Se a alteração auditiva responsável ou associada ao sintoma não for considerada, apenas atuar sobre o processamento cerebral pode não ser suficiente.
Por isso, a avaliação audiológica faz parte de uma investigação completa do paciente com zumbido.
3. O tratamento exige tempo
A neuromodulação não é um tratamento realizado em uma única sessão.
O protocolo e a frequência das sessões dependem da técnica utilizada, do objetivo terapêutico e da avaliação individual de cada paciente.
Em alguns protocolos utilizados para zumbido, são realizadas sessões repetidas ao longo de várias semanas ou meses.
Isso está relacionado ao conceito de neuroplasticidade, ou seja, à capacidade do sistema nervoso de modificar seus padrões de funcionamento em resposta a estímulos.
Por isso, é importante ter expectativas realistas e compreender que o resultado não costuma ser imediato.
4. A melhora costuma acontecer gradualmente
Um dos erros mais comuns é esperar que o zumbido desapareça imediatamente após o início do tratamento.
Na prática, a evolução pode ser progressiva.
O paciente pode perceber, por exemplo, que o zumbido está incomodando menos, que consegue prestar menos atenção nele ou que passa períodos maiores sem perceber o som.
Essas mudanças podem acontecer antes de uma redução importante da percepção do zumbido.
Por isso, acompanhar a evolução ao longo do tempo é fundamental.
5. Como acompanhar a resposta ao tratamento?
Nem sempre o paciente consegue perceber sozinho se houve uma melhora significativa.
Por isso, além da avaliação clínica, podem ser utilizadas ferramentas específicas para acompanhar a evolução.
Entre elas estão:
- THI (Tinnitus Handicap Inventory): questionário que avalia o impacto do zumbido na qualidade de vida.
- Acufenometria: avaliação das características perceptivas do zumbido, que pode auxiliar no acompanhamento da evolução.
Essas informações ajudam a comparar o quadro antes, durante e depois do tratamento.
6. Outras condições de saúde também precisam ser avaliadas
O zumbido raramente deve ser analisado de forma isolada.
Alterações do sono, por exemplo, podem influenciar significativamente a percepção e o incômodo causado pelo zumbido.
A apneia obstrutiva do sono, além de prejudicar a qualidade do sono, está associada a alterações metabólicas e inflamatórias que podem interferir no funcionamento do sistema nervoso.
Outras condições clínicas também podem precisar ser investigadas de acordo com a história e os sintomas de cada paciente.
Por isso, tratar apenas o zumbido, ignorando outros problemas de saúde associados, pode limitar o resultado do tratamento.
7. Existem contraindicações e situações que exigem avaliação cuidadosa
A neuromodulação não é indicada para todos os pacientes.
Dependendo da técnica utilizada, podem existir contraindicações ou situações que exigem avaliação específica, como determinados dispositivos ou materiais metálicos implantados, marcapasso, algumas condições neurológicas ou oncológicas e gravidez.
As contraindicações variam conforme o tipo de neuromodulação utilizado. Por isso, não é seguro assumir que uma técnica seja adequada apenas porque funcionou para outra pessoa.
A indicação deve sempre ser individualizada.
Neuromodulação para zumbido: o mais importante é a indicação correta
A neuromodulação pode ser uma ferramenta muito interessante no tratamento do zumbido, mas não deve ser encarada como um tratamento isolado ou universal.
Antes de iniciar, é importante avaliar:
- a causa e as características do zumbido;
- a audição;
- possíveis deficiências nutricionais;
- qualidade do sono;
- outras condições de saúde;
- possíveis contraindicações;
- e as expectativas do paciente em relação ao tratamento.
Quando necessário, esses fatores devem ser tratados ou ajustados antes ou em conjunto com a neuromodulação.
O objetivo não é simplesmente tratar o zumbido
O tratamento mais adequado é aquele que considera o paciente como um todo, identificando os fatores que podem estar contribuindo para o sintoma e escolhendo as estratégias terapêuticas de acordo com cada caso.
Por isso, antes de perguntar apenas “qual aparelho ou técnica de neuromodulação devo fazer?”, a pergunta mais importante é:
“A neuromodulação é indicada para o meu caso e este é o momento certo para iniciá-la?”
Essa avaliação individualizada é o primeiro passo para construir um tratamento mais seguro, direcionado e adequado às necessidades de cada paciente.
Dra Kênia Assis Chaves
Médica otorrinolaringologista
CRMMG 52018 RQE 33072